A televisão brasileira é um lixo só. Pelo visto, a televisão mundial segue o mesmo caminho, com programinhas descartáveis, reality shows bizarros e um jornalismo muito do capenga (com honrosas exceções). Para cada bom programa, temos dezenas de produtos embaladinhos para despertar no telespectador o que de pior o ser humano sentir.
Por isso sempre é um alento ligar a tv a cabo e verificar a programação do multishow hd. Enquanto seu homônimo mais antigo segue com a fórmula de sempre, o hd oferece aos fãs de música um acervo bacana e surpreendente de shows, clipes e documentários dos mais variados. Claro que nem todos são excelentes, mas o saldo tem sido bem positivo. Já consegui assistir de clássicos como "Ziggy Stardust" a shows recentes de bandas legais como "Kaiser Chiefs" e "The Killers", sempre sem intervalos e com imagem em alta definição.
Ultimamente, os documentários em particular têm me chamado bastante a atenção. O do Clash, "Rebel Truce", é excelente, assim como o do "Duran Duran", sobre o making of do clássico álbum "Rio". Ambos trazem informações relevantes sobre bandas importantes na história do rock. Mais recentemente, o canal exibiu "Pearl Jam: twenty", belíssimo registro sobre os 20 anos de carreira do Pearl Jam, dirigido por Cameron Crowe, e que chegou a ser exibido em (poucos) cinemas do Brasil.
Mas confesso que, dos que vi recentemente, foi o do Iron Maiden que mais me impressionou. O filme "Flight 666" foi gravado durante a turnê "Somewhere back in time", na qual a banda reapresentou seu repertório clássico aos fãs mais novos, tocando nos shows, com raras exceções, somente músicas dos álbuns "The number of the beast", "Piece of mind", "Powerslave" e "Somewhere in time", representativos do auge da carreira dos metaleiros ingleses. A equipe de filmagem acompanhou a "Donzela de Ferro" a bordo do boeing particular da banda, pilotado pelo vocalista Bruce Dickinson, e conseguiu flagrar e captar belos momentos, como a interação entre os membros, a relação com os fãs e as horas de lazer (gastas em jogos de futebol, golfe e tênis).
Apesar de mostrar a passagem da turnê em várias partes do mundo, a passagem pela América Latina é a mais marcante. O próprio Bruce Dickinson admite que, abaixo da linha do Equador, as coisas ficam "quentes". Fãs absolutamente fanáticos, shows em lugares inusitados (como um parque em Bogotá) e uma maratona absurda de concertos. Já aconteceu até mesmo de serem banidos pela Igreja Católica chilena. Para os fãs brasileiros, o filme tem sabor especial, com imagens do primeiro Rock in Rio e o registro de um padre (!) que prega os valores (!) contidos nas letras do Iron. Impagável.
Ao final, quando constatamos que gente como Tom Morello, Ronnie James Dio e Lars Ulrich prestam depoimentos quase emocionados (principalmente Morello!) ao falar do Iron Maiden, e vemos o quanto eles dominam o palco, até mesmo aqueles que não são fãs da banda têm que admitir que os caras transcenderam o movimento "heavy metal" para se consolidarem como um legítimo gigante do rock, digno de figurar em qualquer lista de maiores de todos os tempos. O mais interessante, no entanto, é que isso tudo aconteceu sem apoio das rádios e da mídia em geral, apenas com o legítimo carinho de fãs que se renovam a cada dia, coisa que muita banda queridinha da crítica não tem e jamais terá.



