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domingo, 27 de maio de 2012

Occupy 3: quebrando o mundo

BBom, já que o post anterior foi sobre os nossos amigos da Insurgência, li esse post de Márcia Denser que parece ter servido como uma luva para o assunto.

Sinto um certo desconforto de pertencer à minha geração. Muitas coisas que são ditas como uma espécie de "identidade" de meus contemporâneos parecem estranhas para mim. É mais ou menos como na música do Ira, "não os sinto, não os tenho". Mas o título da colunista me lembrou outra música que era muito popular na nossa época de adolescente. Aquela do Planet Hemp, em que D2 falava que continuava queimando tudo até a última ponta. Parece que foi o que aconteceu. Infelizmente, para o mal.



Occupy 3: quebrando o mundo

“As massas de jovens e velhos precarizados do Occupy são o atestado de derrota da geração pós-neo-conservadora, pró-establishment e anti-tudo”
Estou fechando minha coluna hoje, quarta, 23 de maio, aliás, dia do meu nat, aproveitando para agradecer coletivamente, de todo o coração, às dezenas de cumprimentos, lembranças e manifestações de afeto recebidas de amigos das redes Facebook, Likedin, etc.,  aproveitando para tornar à pauta doOccupy (ensaio publicado recentemente pela Boitempo), os movimentos de protesto que tomaram as ruas do planeta.
Chamou especialmente minha atenção um trecho do artigo do crítico Vladimir Safatle, da USP, onde, a propósito, ele fala do tempo e da questão geracional, com o título “A geração que quebrou o mundo”. Diz ele: “Hoje, nem acredito, estou chegando aos quarenta anos. Lembro que na idade de vocês, dezoito, dezenove, vinte anos, costumava ouvir que não havia mais luta política a ser feita, que o mundo estava globalizado e o que valia era a eficácia, a capacidade de assumir riscos, de ser criativo, inovador, de preferência em alguma agência de publicidade ou departamento de marketing”.
Segundo Vladimir, se assumissem essa “nova realidade”, as pessoas entrariam num futuro radiante onde só haveriam vencedores e raves, onde os que ficassem para trás teriam um problema moral, pelo fato de não assumir riscos e a necessidade de inovação, etc. Então, penso ironicamente, de fato, realizar o “socialismo para os ricos”, salvando bancos, etc., realmente SERIA um tarefa e tanto!
As pessoas que acreditaram em tal discurso há vinte anos – e que hoje estão em torno dos quarenta – foram trabalhar no sistema financeiro e conseguiram criar uma crise maior que a de 1929, da qual ninguém sabe sair. Ou seja, admite Safatle, eles simplesmente conseguiram quebrar o mundo! Para essa geração, não era possível que o futuro fosse diferente do presente. Ela não acreditava, em nenhuma hipótese, na capacidade de transformação da participação popular, considerando isso chavão ideológico ridículo.
Diz ele: Como assim participação popular? Isso não existe mais! Manifestações? Isso não existe (num mundo globalizado para cima)! Vocês não deveriam existir! Por isso, essa geração é a primeira a dizer que vocês não sabem o que fazem, são uns sonhadores, que, no máximo, só podem aparecer como fundo em comerciais de jeans! Pois, se vocês mostrarem que a força crítica do pensamento é capaz de reconstruir nossas relações sociais, então eles se perguntarão: o que fizemos esse tempo todo? Como fomos capazes de acreditar em algo que agora desmorona?
As massas de jovens e velhos precarizados do Occupy são o atestado de derrota dessa geração pós-neo-conservadora, pró-establishment e anti-tudo.
Por que a crise econômica ficou desse tamanho? E mais: como foi possível que se praticasse este verdadeiro genocídio econômico? Os mesmos bancos que, há três anos, estavam quebrados, hoje estão superavitários. Graças ao dinheiro do Estado. Assim, que sistema político é esse que é incapaz de colocar contra a parede quem destrói a vida, o direito ao trabalho, à saúde, à educação e a propriedade das famílias?
Perto do que se fez hoje em termos de desapropriações – a expulsão das famílias de suas casas em razão de hipotecas impagáveis –, a turma de Lenin em 1917 foi piquenique de freiras! Como bem lembrou Slavoj Zizek, alguém devia ter colocado essa turma para trabalhar durante a Revolução Russa!
Mas voltando ao Occupy: ele é um primeiro passo, mas este grande movimento está apenas começando e tais processos são lentos. Lembrando Freud: “A razão pode falar baixo, mas não se cala”.
Aqui uno minhas idéias às de Safatle: realmente, não dá mais para confiar em partidos, sindicatos, estruturas governamentais que não podem funcionar como instrumentos de rupturas radicais, como é precisamente o caso. Vladimir lembra que na Grécia governa um partido social-democrata, o Pasok, de esquerda; na Espanha, um clássico partido pseudo-esquerdista, o PSOE – Partido Socialista Operário Espanhol, e isto para não falar nas estruturas políticas norte-americanas, nacionais, etc.etc.etc: ora, com uma esquerda como esta, quem precisa de direita? Todos jogam no mesmo time. E isto significa que a época em que as pessoas se mobilizavam em torno de siglas e partidos acabou radicalmente.
E o que vem por aí, só o futuro dirá, contudo o movimento Occupy já acena com algumas respostas. E os ricos do planeta – aqueles mesmos pertencentes à geração que quebrou o mundo – não vão gostar de ouvi-las.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Alan Moore comenta os comentários do velho-gagá-reaça Frank Miller

Achei a matéria no Actions e Comics.

A coisa começa com aquele senhor senil dizendo bobagem:


O ‘Occupy’ não passa de um bando de turrões, bandidos e estupradores, uma turba indisciplinada, vivendo da nostalgia de Woodstock e de fétida e falsa honradez. A única coisa que esses palhaços conseguem é fazer mal à América. Não é mais do que uma modinha criada por moleques mimados de iPhones e iPads na mão que deviam sair da frente de quem quer trabalhar e procurar emprego (…). Em nome da decência, voltem para casa do papai, seus medíocres. Vão para o porão da mamãe brincar de Lords Of Warcraft. Talvez nossos militares consigam botar razão na sua cabeça. Só que talvez não deixem você ficar com o iPhone.

Beleza, hem? Só faltou ele dizer que é de uma geração que lutou em duas guerras guerras para salvar o mundo livre do comunismo... aquele papinho de sempre... Bom o que mais poderia se esperar de um cara que tem o fascismo como marca registrada de sua obra?


O velho gagá
O homem sábio












Então, o grande Alan Moore dá a resposta:


Bem, Frank Miller é alguém cujo trabalho eu mal conferi nos últimos 20 anos. Eu pensava que as coisas de Sin City fossem misoginia reconstruída, 300 parecia ser forte homofobia “a-histórica” [não histórico] e completamente equivocada. Eu acho que provavelmente houve uma aparente sensibilidade desagadrável no trabalho de Frank Miller por um bom tempo. Considerando que eu não tenho nada a ver com a indústria de quadrinhos, não tenho nada a ver com as pessoas nela. Eu ouvi sobre as últimas efusões relacionadas ao Movimento “Occupy”. É o que eu esperaria dele. Sempre pareceu a mim que a maior parte do ramo de quadrinhos, se você tivesse que posicioná-los politicamente, você teria que chamá-los de “center-right”* [algo com um centrismo direitista]. O que seria o mais longe em direção ao ponto liberal do espectro que podem ir. Eu nunca estive de forma alguma, eu sequer sei se eu sou “centre-left” [um centrista de esquerda]. Eu sempre fui sincero sobre isso desde o começo da minha carreira. Então sim, eu acho que seria justo dizer que eu e Frank Miller temos visões diametricamente opostas sobre diversas coisas, mas certamentamente sobre o Movimento “Occupy”.

Até onde posso perceber, o movimento é apenas sobre pessoas comuns reclamando direitos que deveriam ter sido sempre deles. Eu não consigo pensar em outra razão pela qual como população devêssemos esperar ficar parados e ver uma imensa redução dos nossos padrões de vida e de nossas crianças, possivelmente por gerações, quando o pessoal que nos levou a isso continuam sendo recompensados por; eles certamente não serão punidos de nenhuma forma porque eles são grandes demais para cair. Eu acho que o Movimento “Occupy” é, de certa forma, o público dizendo que eles é que deveriam ser os que decidem quem seria grande demais para cair. É um completamente justificado rugido de ultraje moral e parece estar sendo desenvolvida de uma forma inteligente e não violenta, o que provavelmente é outro motivo pelo qual isso não agrada muito Frank Miller. Tenho certeza que se tivesse sido um bando de jovens vigilantes sociopatas com maquiagem do Batman em seus rostos, ele seria mais a favor. Eu e ele definitivamente temos que concordar em discordar nisso aí.


Bom, possa assinar embaixo do que disse o mago inglês. Sempre achei Miller superestimado, e nunca perdoei o que ele fez com o Robocop. Ademais, acho que "O Cavaleiro das Trevas", embora seja uma história legal,  é pra lá de pretensiosa. Não tem os toques de sutilizea e elegância de uma obra-prima do quilate de "A Piada Mortal". Isso para não mencionar aberrações do naipe de 300, com o figurino saído direto do Gala Gay. Na boa, esse Miller dever ser uma daquelas bichas enrustidas que condena o casamento homossexual porque tem uma ereção quando vê dois homens se beijando.

Ui! Ui! Vamos lá gurias!

Vem cá, gostosão!


Robocop 2 ou Como Transformar um Filmaço de Paul Verhoeven Numa Bela Porcaria

















Para lembrar que as aberrações não são restritas à mídia cinema, lembro que Miller criou Batman: Holy Terror, bem ao gusto de Bush Jr., mostrando o Morcegão enfrentando a rede Al Qaeda. Até a DC viu que não seria uma boa ideia e cancelou o projeto. Por falta de semancol, Frank Miller resolveu levar a coisa sozinho, e lançou a história com outro personagem: uma Cavaleiro das Trevas genérico, fascista, reacionário e preconceituoso. Um folhetim raso de propaganda que faria até Goebbels corar de vergonha.